
Não é que eu não tenha acreditado na morte de Michael Jackson. Eu acho que eu não acreditei, foi na vida. No que fizeram com a vida dele. Ou ele deixou(-se) fazer.
Sabido é: não é pra qualquer um aquele tranco todo. Parecia que ele ia ter um troço em cima do palco, não a platéia...
Isso justifica a overdose de caras? A tentativa de se estabelecer em um mundo que não combinava com ele?
Peter Pan nunca foi pai. E o filho de Joseph e Katherine nasceu pai. De música.
Criança com ginga, com fé. Que em algum momento se perdeu.
Vai saber... Alguém pode ter cochichado no ouvido dele "Grande merda ser o mais vendido, se na hora em que a gente quiser, a gente te encerra", e mais recentemente "Do jeito que vai o mundo, vai ter gente no youtube superando teu recorde a custo zero, em dez anos no máximo, falando um monte de merda pra essa gente barata".
Acho que isso aliado a mais pura androginia meio reprimida, uma certa boa fé, e a noção de bobo da corte, fizeram de Michael um anjo deslizante. Da mesma forma que seus pés patinavam sobre o chão, sua alma tentava deslizar sobre a vida.
Com fragilidade.
Aliada à precisão. Gestos. Movimentos perfeitos. Às vezes pura e frenética solidão. Que em algum momento nos tragava em delírio, exaltação e liberdade.
Ninguém explica ninguém, e nem tem o direito de tentar. Existe um tempo para as coisas assentarem. É esse o tempo que vai decupar uma história de vida. Refinar a visão sobre uma existência. No caso aqui, de alguém excepcional. Genial. E que talvez, por isso, não tivesse o direito de ser feliz.
Digo, de sentir-se bem.
Sentir-se bem se tornou bem incomum. Logo os beneficiáveis desaparecem sob uma minoria esmagadora, à cada dia.
O homem já pisou na lua, o globo inteiro se comunica, já é possível a vida em laboratório, e Michael Jackson morreu. Tirando toda a tristeza do fundo do peito, encerramos uma era. Que venha uma Supernova!. Afinal acabamos de mandar para o lado de lá, outra.
LOVENIA. SAO.PAULO
BRASIL.2009
